Ele caminhava pela praia com um cachorro preto ao lado, que corria, corria e corria. Começou a latir quando o dono entrou no mar, agoniava a falta ou qualquer perigo que de repente ocorria longe dos seus olhos de cão que guarda. Mais emocionante do que a fidelidade canina era a semelhança do homem com o meu pai. O mesmo tipo de bermuda, aquele caminhar dos que têm um tronco maior do que a perna parece aguentar, o cabelo meio grande para a idade. Fora a semelhança física, como em um sonho, pude viver por alguns instantes tudo aquilo que sonhei para meu próprio pai. Já tinha tudo esquematizado, ele moraria comigo em uma casa de família feliz e nosso bulldog chamado borracha seria seu companheiro para o que der e vier. Depois do almoço descansariam juntos e todas as manhãs sairiam para comprar pão na padaria mais próxima. Ele teria uma cadeira igual a que a gente tinha no outro apartamento, que deitava e dava para colocar os pés, aquela seria a cadeira do ‘vovô’ e a única preocupação do meu pai seria o ronco que o borracha provavelmente teria todas as noites, tão natural dessa raça. O senhor de uns 60 anos andando em uma prainha do Espírito Santo com o cachorro ao lado me fez sentir saudade daquilo que eu nunca vou poder viver. Eu queria muito que o meu pai tivesse um cachorro a latir de saudade enquanto ele – como dono -, fosse só até ali tomar um banho de mar. Talvez isso tudo seja uma grande metáfora e eu seja aquele vira lata preto angustiado esperando aquilo que ele mais ama na vida voltar, mas no meu caso a volta é tudo aquilo que me faz crer que meu pai ainda existe, ainda que em outro lugar. Assim, eu e o borracha pulamos de alegria.