Eu sei que tenho mau humor matinal, que eu sou insuportável quando tenho fome, que eu anoto tudo que como para perceber qual a reação que isso tem no meu organismo. Sei dos meus misticismos milenares, da minha carência absurda, da minha grande falta de retribuição. Eu sei muito bem dos meus problemas, sei que eu não devolvo a massagem que recebo, sei das minhas exigências, das minhas birrinhas, das quinhentas abobrinhas que eu falo. Sei que eu olho torto para as carnes lotadas de óleo, que eu não sei almoçar tarde nem no domingo e finjo que não escuto o celular. Sei que não permito que ninguém me acorde e me acho uma idiota quando eu desligo todos os barulhos do mundo para isso.
Os defeitos são meus e eu durmo e acordo com eles todos os dias.
Mas eu sou legalzinha quando me importo com uma amiga, quando ligo no aniversário, quando compro um chocolate como parabéns, quando penso nas faltas, nas provas, nos trabalhos por todas elas. Sou bem razoável quando me preocupo se ele comeu salada, se ele foi bem no trabalho, se ele vai fazer esse ou aquele curso. Eu também já chorei por amor, eu também já passei uma noite em claro procurando uma saída, eu já tive ciúmes e raiva, meu coração já doeu bem apertadinho por alguém. Eu reconheço minhas loucuras, minhas saídas pela noite desesperada. Eu já quis doar meu coração, porque ele já foi pesado demais para mim.
Só que hoje eu mudei. Eu amo solto tudo que tem raiz nessa terra. E eu não quero que você tenha medo de mim. Porque minha falta de romantismo não é falta de paixão. É excesso dela.
Não resta espaço para besteira nenhuma na minha vida.