On the road

Espero que conhecer 15 cidades no primeiro mês do ano signifique bons agouros. Que ventos requintados soprem a meu favor..

Minha vida na Yoga

*a cafonice do título foi proposital

Mais cafona ainda é a próxima afirmação: A Yoga mudou a minha vida. E que tal essa? A Yoga me salvou da vida. Mas é verdade, existem religiões, filosofias, esportes, comida, drogas, enfim, muitos caminhos para escapar de tudo que você quiser fugir. No meu caso há alguns anos eu já sabia do bem que a prática me faria, foi necessário uma aula só para a paixão ser absoluta, infelizmente o tempo me roubou alguns anos até que em uma época delicada eu tive que pedir licença do mundo e me dedicar principalmente a isso. Estou longe, muito longe de tudo que posso alcançar, mas a Yoga é um caminho e um norte para a vida inteira. O que de melhor aprendi até agora foi a respirar. Lenta e profundamente. Todo mundo respira, eu mesma respiro há 24 anos, mas os efeitos medicinais dessa postura só adquiri agora. Respirar, ter fé na vida, e acreditar que o melhor sempre nos acontece. Engolir a ansiedade e esperar. Se não fosse a Yoga eu estaria perdida..

Quando eu caí em Pernambuco
Ralei joelho, virei o pé, inchou o dedo
Pedi ajuda, tiraram meu tênis
Ri para não chorar, voltei mancando
Tinha sangue, hematomas e ardidos
Ardeu uns 6 mil quilómetros
E ainda arde, na verdade
Mas o pior de tudo foi a cabeça..
Bati tão forte que nem lembro
Quando eu caí em Petrolina
(Não, eu não tropecei em um pé de Juazeiro)
Pois bem, quando eu caí em Petrolina
Tenho certeza que bati a cabeça também..
Pior que a cicatriz estampada na perna
São as sequelas invisíveis a olho nu.

Estamos todos a procurar… dias melhores, pessoas, lugares, objetivos, sentidos, por quês. Acontece que demoramos para entender (e assimilar) que só encontramos aquilo que emanamos. Se “quem colhe tempestade é porque planta ventania” é ditado popular não é a toa. Para os que vivem reclamando daquilo que encontram pelo caminho (inclusive eu, às vezes), talvez seja a hora de adquirir uma conduta mais pacífica e ética no dia a dia. Chopra comenta que temos tudo aquilo que precisamos para o momento no qual vivemos, embora doloroso, me nego a acreditar que a vida seja dura ou ruim. Me coloco no centro de toda a culpa do que acontece comigo. São as minhas atitudes que conduzem as atitudes do destino. Isso tudo para dizer que eu mereço tudo aquilo que desejo alcançar, mas para isso é preciso vibrar na mesma frequência. Não merece um conto de fadas quem age como em um filme de terror.

Se faltar a paz: Minas Gerais

Antes fosse vida, é novela

Ele caminhava pela praia com um cachorro preto ao lado, que corria, corria e corria. Começou a latir quando o dono entrou no mar, agoniava a falta ou qualquer perigo que de repente ocorria longe dos seus olhos de cão que guarda. Mais emocionante do que a fidelidade canina era a semelhança do homem com o meu pai. O mesmo tipo de bermuda, aquele caminhar dos que têm um tronco maior do que a perna parece aguentar, o cabelo meio grande para a idade. Fora a semelhança física, como em um sonho, pude viver por alguns instantes tudo aquilo que sonhei para meu próprio pai. Já tinha tudo esquematizado, ele moraria comigo em uma casa de família feliz e nosso bulldog chamado borracha seria seu companheiro para o que der e vier. Depois do almoço descansariam juntos e todas as manhãs sairiam para comprar pão na padaria mais próxima. Ele teria uma cadeira igual a que a gente tinha no outro apartamento, que deitava e dava para colocar os pés, aquela seria a cadeira do ‘vovô’ e a única preocupação do meu pai seria o ronco que o borracha provavelmente teria todas as noites, tão natural dessa raça. O senhor de uns 60 anos andando em uma prainha do Espírito Santo com o cachorro ao lado me fez sentir saudade daquilo que eu nunca vou poder viver. Eu queria muito que o meu pai tivesse um cachorro a latir de saudade enquanto ele – como dono -, fosse só até ali tomar um banho de mar. Talvez isso tudo seja uma grande metáfora e eu seja aquele vira lata preto angustiado esperando aquilo que ele mais ama na vida voltar, mas no meu caso a volta é tudo aquilo que me faz crer que meu pai ainda existe, ainda que em outro lugar. Assim, eu e o borracha pulamos de alegria.

 

Ali onde o São Francisco foi visto pela primeira vez encorpado, barrento e escondido. Fiquei obcecada por esse lugarzinho no meio do nada. No meio de uma estrada de terra em Minas Gerais, durante o ‘camiinho’ (licença poética citando guimarães) percorrido tive que parar para compreender e admirar tal beleza. Fiz amizade com um cachorro que vivia ali e não acreditei na placa que dizia “camping” em uma casa bem simples na beira do rio. Ali eu parei e pensei que não seria má ideia passar muitos dias olhando a água correr.

É vida, não novela

Parte I

Amália é minha melhor amiga há uns dez anos. Nos conhecemos há mais, mas o estreitamento da amizade só aconteceu quando dividimos – aos 14 anos – , nosso primeiro namoradinho, isso tudo na maior paz e amor. Quer dizer, não foi sempre assim. Quando ela resolveu colocar no icq um trecho de uma música pop da época que dizia algo assim: “chega de fingir, eu não tenho nada a esconder, agora é pra valer, haja o que houver, eu não tô nem aí pro que dizem, eu quero é ser feliz…”, eu fiquei meio puta. Nunca esqueci. Na época meu triunfo era ter sido a primeira. Depois de mim veio ela e depois ainda veio mais uma. O rapaz fazia sucesso entre as meninas que eu conhecia. Com 14 anos eu não queria saber muito dessa coisa de namorar, eu confesso. Dei meu primeiro beijo no aniversário de 15 anos da Amália, no dia seguinte combinamos um cinema, o menino que fazia sucesso me deu um suposto ‘bolo’. Sai do shopping chateada direto para uma matine cafona que bombava naquele tempo. Enquanto isso, o moço chegava atrasado devido a problemas em nossa comunicação e bombava um celular podre que eu tinha, mas nem sabia usar direito. Dia confuso, da matine direto pro cinema e aos 14 anos eu tinha um pai puto da vida comigo: “onde vai parar essa menina se aos 14 anos já está assim?”

Parte II

Tudo indicava que aquele seria meu futuro namoradinho. E era, estava sendo. Ele com 16, eu com dois a menos. Ele já bebia, eu mal saia de casa. Só sabia que o menino loirinho de cabelo em pé tinha despertado a minha atenção. E após tomar umas e outras chegou em mim. Festa, cinema, mais cinema. Andar de mãos dadas na praia e no gonzaga. Conhecer o shopping inteiro, sair de casalzinho. Ele foi o primeiro menino a encostar no meu joelho. Vi MIB 2, um desenho da Disney, apresentei o milkshake de ovomaltine do Bob’s. Fomos assaltados e levaram o casaco novinho do loirinho de cabelo em pé. Fui viajar e fiquei incomunicável, aqui o menino continuava um sucesso entre as meninas, minhas amigas na verdade. E fez que fez que conseguiu o telefone de onde eu estava. Ligou para uma que ligou para minha casa que conseguiu o número e passou para ele. Hoje vejo o potencial de homem ‘que faz’ no menininho de 16 anos que ele era. Voltei de viagem, terminei o namorico porque eu nem sabia se era aquilo que eu queria mesmo. Puro medo, cagona pra caralho eu era.

Parte III

Glicério. Nunca gostei do nome. Gligli minha mãe chamava. Namorou a Amália dias depois de namorar comigo. Passou a beber mais, muito juvenil. Fez besteira, eles terminaram. Se envolveu com outra conhecida da época e assim seguíamos todos presos nessa história boba de quem está se tornando adolescente e não tem nada melhor para fazer. Lembro que todos os amigos dele gostavam de mim. Falavam constantemente: “Fernanda, o Glicério sai por aí bebendo demais, não lembra do que faz, só você pode dar um jeito na vida dele..”. Eu até tentei, no meu aniversário de 15 anos ele me escreveu pedindo desculpas e me deu uma blusinha linda de surf, moda da época, mas no fim acabou nos braços de outra,justo na minha festa..

Parte IV

Adolescemos de verdade, começamos a envelhecer. Glicério teve namoros sérios de verdade, eu tive os meus, Amália teve os dela. Só eu mantive um contato escasso. Uma vez nesse meio tempo trocamos palavras de carinho, de uma história que nem começou, de como teria sido, na verdade em como teria sido bom. Falhamos. Até hoje tenho alguns pingos de arrependimento… Tenho certeza que teria vivido um daqueles namoricos de aliança no dedo, cartinhas, cinemas e descobertas. A gente era bobinho demais, era bonitinho demais.

Parte V

Um dia antes do meu pai morrer nos falamos. Ele me ligou. Tocamos em saudades e o porque dessa distância toda. Eu fui para o jornalismo e ele para as ciências sociais lá de São Carlos. Ficou barbudo, politizado, já tinha medo do futuro profissional que a vida iria nos reservar. A última vez que nos abraçamos foi no velório do meu pai, ele foi, me deu um abraço e sumiu. O vi na virada do ano de 2010 para 2011, ele lá, com a Bruna, sua namorada, e eu na farra com amigos. O vi de longe, evoquei bons sentimentos e resolvi não chegar perto. Estava tudo bem em ser assim.

Parte VI

Semanas depois soube do acidente. Semanas depois chorei em um bar da Rua Augusta. Escrevi para a Bruna e ela me disse que ele falava bem de mim. Passei um ano pensando em como seria reencontrá-lo na festa que fariam assim que ele saísse do coma. Pensei como eu iria chegar, no abraço que eu iria dar, em quantas lágrimas eu iria soluçar. Hoje eu soube que isso não será mais possível. Não basta viver com a dúvida sobre como nossa história teria sido diferente caso eu não fosse tão imatura e ele tão bonitinho para a época, terei de viver com a vontade de ter sido mais presente, de ter visto ele durante esse ano, de ter visto tudo isso com um outro final. Sinto muita saudade do que eu não vivi, sinto muita saudade do que eu gostaria de ter visto ele viver.

Parte VII

Amália acabou de sair daqui de casa. Evocamos um pouco disso tudo e rimos com muito carinho. Hoje eu posso conversar com o Glicério que sei que ele vai me ouvir. E se tem algo que eu amo nessa vida é ela e tudo que me liga a ela. Se tem uma história na vida que eu tenho muito carinho é essa. Hoje os laços que me unem a ele e também a ela se apertaram ainda mais.

Eu e o menininho no meu aniversário de 15 anos…

Oração ao tempo

Nossa novela das seis, antes só minha, mas nem foi preciso uma batalha para te convencer de que o roteiro é legal, a história interessante, e que dá para perder uns cinquenta minutos quando sobra tempo na semana. Agora voltou a ser só minha, já que é preciso me esforçar muito para ver vantagem nisso tudo, ao menos não vou precisar ouvir seus futurismos baseados nos finais previsíveis dessas bobagens da tv… Eu ainda acredito no surpreendente.

Só é meu aquilo que eu posso carregar

Só é meu aquilo que eu posso carregar. Só é meu aquilo que eu posso carregar..

Foi durante minhas andanças que essa frase ganhou um novo sentido. Na desconexão que me afastava de um tanto e me unia a outro tanto pude entender que, além de bens materiais, só é verdadeiramente meu aquilo que eu carrego no peito independente de Internet, celular e afins. A verdadeira conexão é etérea. Me basta muito menos de tudo aquilo que acho necessário e é mais forte muito daquilo que eu digo sentir no superlativo. Como afirmei anteriormente, voltei de mais, voltei de menos, mas..

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